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O Colapso da Ortodoxia Freudiana

Emma Eckstein: o erro médico que Freud tratou como sintoma da paciente

Em 1895, uma cirurgia deixou cerca de meio metro de gaze no nariz de uma paciente de Freud. A explicação que veio depois diz muito sobre a psicanálise.

IOPNO · Institucional · 30 de outubro de 2026

Em uma fraseem 1895, um erro cirúrgico quase matou uma paciente de Freud, e as cartas dele mostram que o sangramento foi lido como sintoma dela, e não como falha do médico.

Emma Eckstein foi uma das primeiras pacientes de Freud. Procurou tratamento por queixas como dores de estômago e irregularidades menstruais. Freud, influenciado pelo amigo Wilhelm Fliess, médico que defendia uma suposta ligação entre o nariz e os órgãos sexuais, encaminhou Eckstein para uma cirurgia nasal em fevereiro de 1895.

Fliess operou e deixou dentro da cavidade nasal da paciente cerca de meio metro de gaze cirúrgica. Semanas depois, a retirada do material provocou uma hemorragia que quase a matou. Freud estava presente.

O que veio depois está nas cartas de Freud a Fliess, publicadas na íntegra apenas em 1985 pelo pesquisador Jeffrey Masson. Freud não responsabilizou o amigo. Com o tempo, passou a interpretar os sangramentos de Eckstein como expressão de desejo, ligados à vontade dela de receber atenção.

A leitura do O.I.N.O.R.

Hoje existe uma expressão para quando a queixa física de alguém, quase sempre de uma mulher, é tratada como exagero ou problema emocional: gaslighting médico. O caso Eckstein é um exemplo de manual, mais de um século antes de o termo existir.

Nossa tese, O Colapso da Ortodoxia Freudiana, não usa o episódio para julgar o caráter de Freud. Usa para mostrar um mecanismo. Um sistema em que o paciente sangra e o diagnóstico é a histeria dele, em que o tratamento falha e a explicação é a resistência dele, protege o terapeuta de qualquer erro. Para nós, esse não é um desvio da psicanálise, é o momento em que um de seus mecanismos centrais aparece pela primeira vez, de forma documentada.

Nota de rigor. esta é uma matéria histórica, sem notícia do dia. A interpretação do episódio como mecanismo da psicanálise é da tese, e historiadores discutem o caso.

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