Em uma fraseem um experimento de 2020, histórias passadas entre autistas chegaram tão inteiras quanto entre não autistas, e a perda de informação apareceu quando os dois grupos conversaram.
Durante décadas, o autismo foi descrito como um déficit de comunicação social: a pessoa autista seria a que não consegue ler os outros. Em 2012, o pesquisador britânico Damian Milton, ele próprio autista, propôs uma inversão chamada problema da dupla empatia.
Segundo Milton, a dificuldade não está só de um lado. Pessoas não autistas também têm dificuldade de ler pessoas autistas. A falha de comunicação seria mútua, nascida da diferença entre dois modos de funcionar.
Em 2020, a pesquisadora Catherine Crompton e colegas testaram a ideia com um experimento parecido com a brincadeira do telefone sem fio. Uma história era passada de pessoa para pessoa em cadeias só de autistas, só de não autistas e mistas. As cadeias só de autistas transmitiram a informação tão bem quanto as só de não autistas. As cadeias mistas foram as que mais perderam informação.
A leitura do O.I.N.O.R.
Nossa tese, Neurodivergência como Excedente Evolutivo, adota a dupla empatia como correção decisiva. Se a comunicação falha no encontro entre dois sistemas, chamar só um deles de deficiente é um viés de quem define a norma.
Isso tem consequência prática. Em vez de treinar apenas a pessoa autista a imitar a comunicação da maioria, escolas, empresas e serviços de saúde também podem aprender a ler e acolher outra forma de comunicar. Para a tese, o déficit está na interface, e não em uma das partes. É a mesma lógica que ela aplica ao TDAH e à dislexia: o problema surge do desencaixe entre o cérebro e o ambiente.
Nota de rigor. o experimento de Crompton é pequeno e pontual, e o próprio conceito de dupla empatia ainda está em debate entre pesquisadores.
Fontes
- Milton D. On the ontological status of autism: the double empathy problem. Disability & Society, 2012.
- Crompton C. J. et al. Autistic peer-to-peer information transfer is highly effective. Autism, 2020.
- Bellato, T. Neurodivergence as Evolutionary Surplus, O.I.N.O.R., 2026 (tese do O.I.N.O.R.)
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