Importante. este texto trata de pesquisa científica e não substitui avaliação de saúde. Quem faz acompanhamento de trauma não deve interromper o tratamento por causa de uma discussão teórica. Converse com o profissional que o acompanha.
Em uma frasea teoria polivagal, que organiza muita prática de terapia corporal, é contestada por um grupo de 39 pesquisadores do sistema nervoso autônomo, e o debate está aberto.
Imagine uma sala de terapia corporal, com a luz baixa e um profissional que explica à paciente que o corpo dela "congelou" porque o ramo mais antigo do nervo vago assumiu o comando. A explicação é boa, tem hierarquia, tem evolução, tem uma linguagem que acalma. Boa parte da clínica de trauma das últimas décadas se organizou em torno dela. A tese Além do Enquadramento Terapêutico, do O.I.N.O.R., também se apoia nela logo na segunda seção, ao escrever que a teoria polivagal de Stephen Porges "estabeleceu" que o sistema nervoso responde à ameaça por estados hierárquicos.
Em março de 2026 a revista médica australiana InSight+ noticiou que um grupo de 39 pesquisadores do sistema nervoso autônomo, liderado pelo psicofisiologista Paul Grossman, da Universidade de Basel, publicou na Clinical Neuropsychiatry um artigo cujo título já diz o veredito: a teoria seria insustentável. O grupo contesta as cinco premissas centrais por razões evolutivas e fisiológicas. Segundo a reportagem, o ramo dorsal do vago atua sobretudo no intestino e pouco sobre o coração, o que não sustentaria uma lentificação cardíaca durante o desligamento emocional. A variabilidade da frequência cardíaca ligada à respiração seria uma medida imperfeita da atividade do ramo ventral. O congelamento e a dissociação costumam mostrar pouca ou nenhuma mudança cardíaca. E répteis exibem comportamento social complexo, sem sinal de que o vago ventral tenha sido reaproveitado nos mamíferos para esse fim.
Isso não nasceu em 2026. Uma crítica anterior do mesmo Grossman, com colegas, saiu em 2023 na Biological Psychology, e a própria reportagem registra que parte da comunidade psicológica resiste a abandonar a teoria.
A leitura do O.I.N.O.R.
A tese propõe que o corpo é a superfície de expressão de um padrão neural, e usa a teoria polivagal como o mapa desse padrão. O debate está aberto. O que não está aberto é a redação da tese: "estabeleceu" é uma palavra de consenso, e consenso não existe.
A correção honesta é trocar "estabeleceu" por "propôs", citar a crítica de 2023 e a de 2026 e dizer que o argumento central da tese sobre dependência do terapeuta não precisa desse mapa para se sustentar. Um achado que desfaz uma das muletas da tese é exatamente o tipo de dado que esta série publica, porque a tese só vale se resistir sem ela.
Nota de rigor. lemos a reportagem da *InSight+* e o resumo da crítica de 2023. O artigo coletivo de 2026 não foi aberto.
Fontes
- InSight+ (MJA). Polyvagal theory debunked in comprehensive new study, 9 mar. 2026
- Grossman P et al. Fundamental challenges and likely refutations of the five basic premises of the polyvagal theory. Biological Psychology, 2023
- Porges SW. The Polyvagal Theory. W. W. Norton, 2011 (referência sem link)
- Bellato T. Beyond the Therapeutic Frame (tese do O.I.N.O.R.)
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