Em uma frasena cidade de São Paulo, quem mora em Alto de Pinheiros morre, em média, com 82 anos, e quem mora em distritos da periferia, com cerca de 60.
O Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, compara os 96 distritos da capital paulista. Um dos indicadores mais citados é a idade média ao morrer. Na edição de 2025, ela chegou a 82 anos em Alto de Pinheiros, na zona oeste, e ficou em torno de 60 anos em distritos como Iguatemi, Cidade Tiradentes e Sé. Em Anhanguera, no extremo noroeste, a média registrada em edições recentes foi de 58 anos.
A série histórica da entidade, de 2006 a 2023, mostra que a população da cidade como um todo passou a viver mais. Mas a distância entre os distritos do topo e os da base ficou praticamente igual ao longo de quase vinte anos.
A leitura do O.I.N.O.R.
Nossa tese, O Protocolo do Homem Falho, usa aqui o conceito de necropolítica, do filósofo camaronês Achille Mbembe. Ele parte de uma ideia de Michel Foucault: um poder que faz viver e deixa morrer.
A tese não fala em extermínio deliberado. Fala em decisões de alocação de recursos, como saneamento, transporte, hospitais e segurança, que produzem estatisticamente vidas mais curtas em certos territórios sem que ninguém precise decidir isso de forma explícita. A morte precoce aparece como resultado de planilha.
O dado paulistano torna o argumento concreto. A pergunta que fica não é quem quer isso, mas por que a diferença não se move.
Nota de rigor. a idade média ao morrer não é expectativa de vida. Ela é influenciada pela estrutura etária de cada distrito e pelas mortes de jovens, inclusive por violência. Mesmo com essa ressalva, a distância é grande e persistente.
Fontes
- IstoÉ Dinheiro, Mapa da Desigualdade 2025
- IHU Unisinos, série histórica do indicador
- Outras Palavras, privilégios e desigualdade em São Paulo
- Mbembe A. Necropolítica. N-1 Edições, 2018.
- Bellato, T. The Flawed Man Protocol, O.I.N.O.R., 2026 (tese do O.I.N.O.R.)
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